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ROUBARAM NOSSO PÔR DO SOL, MÃE!
Era para ser mais uma tarde de primavera, a estação do ano que mais encantava Joana. Como de costume, naquele dia, Joana acordou cedinho. Gostava de contemplar o nascer do sol, as cores da rica flora das serras que circulam a cidade onde nasceu e vivia com sua família. Também encontrava beleza nas hortaliças cultivadas por sua mãe no quintal de casa, nas flores e roseiras do jardim não projetado. Joana herdou de sua mãe o gosto por jardins, não podia ver um tipo de planta diferente, que logo desejava uma mudinha. Se conseguia uma, já sabia que plantaria onde sua mãe achasse melhor. Joana gostava do jeito multifloral do jardim, achava mais criativo.
Ainda naquele dia, além de contemplar o que era de hábito, Joana carregava uma alegria diferente no peito, uma realização mais que individual: havia reencontrado amigos e amigas e conhecido pessoas de diversos lugares durante uma semana de festa na Serra da Barriga. As músicas, ritmos, trajes, danças, ritos religiosos, vivências de grupos de capoeira etc. herdadas de sua ancestralidade negra haviam feito de seus olhos duas estrelas de grande brilho.
De tanto contentamento, não conseguia parar quieta. Fez logo o café e molhou a massa de cuscuz, deixou a massa descansando um pouco e foi à padaria. Lá encontrou Tiana, amiga de estudo e de vida, sempre estavam juntas.  Com um sorriso estampado e brilho no olhar, abraçou sua amiga e logo foi perguntando sobre o que estava achando das atividades artísticas que eram apresentadas na Serra.  A amiga nem esperou Joana concluir a pergunta, abriu um lindo sorriso e exclamou: - adorei! Então Joana perguntou: - Você sabia que a Serra da Barriga  passou a ser Parque Memorial Quilombo dos Palmares? A amiga fez cara de espanto, demonstrando não saber. Então Joana, mais entusiasmada ainda, lhe informou que já fazia um certo tempo que o Parque havia sido implantado, desde o ano de 2007. A amiga não piscava os olhos, de tamanha alegria.  Joana não parou por aí, continuou sua aula de história, sem perceber que além de Tiana, outras pessoas que chegavam à padaria, também prestavam atenção ao que informava. - A Serra da Barriga já tinha sido tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, em 1985. Foi uma grande conquista, porque a República dos Palmares foi reconhecida como o maior, mais duradouro e organizado quilombo já implantado nas Américas. Leia tudo o que você encontrar sobre o Parque no site da Fundação Cultural Palmares, é muito interessante.  
Tiana exclamou em voz alta: - Amiga, quanto orgulho fazer parte dessa história! Minha avó sempre conta relatos de nossos ancestrais. Aprendo mais com ela do que na escola, sabia? Nesse momento, Joana se deu conta do avançado da hora e se despediu de Tiana perguntando se iria subir a Serra mais tarde. Nem esperou a amiga responder, enquanto pedia os pães no balcão da padaria, exclamou: - vamos amiga, hoje é o dia do projeto Pôr do Sol.  Tiana, bem animada, exclamou: — Vamos sim, nos encontraremos no local marcado para a saída do ônibus.
Joana não dava conta da ansiedade. A manhã tinha sido longa, ela não havia perdido nenhuma das atividades culturais do projeto Pôr do Sol, realizadas aos domingos na Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas. Para ela, era um reencontro com a cultura africana e, portanto, consigo mesma, uma remanescente de quilombo.
        Chegando em casa, encontrou sua mãe acordada, abraçou-a demoradamente, causando espanto, pois apesar de ter sido filha amorosa, abraços demorados no início de cada dia não eram comuns.  Lembrou à sua mãe que era dia do projeto Pôr de Sol na Serra, e perguntou se ela estava animada. Sua mãe respondeu que naquele dia, não iria, pois não estava com coragem, já havia participado uma vez e, para ela, pôr de Sol é sempre a mesma coisa. Joana, com cara de impactada, indagou: — Claro que não, mãe! Cada nascer e pôr do sol são únicos, por isso vou todos os domingos. Não lembra da música de Lulu Santos? e cantarola: “Nada do que foi será/ de novo do jeito que já foi um dia/ Tudo passa, tudo sempre passará/ [...]// Tudo que se vê não é/ igual ao que a gente viu há um segundo/ Tudo muda o tempo todo no mundo/ [...]”.
Sua mãe não aguentou e sorriu com a desafinação de Joana e exclamou: — Filha, se você tivesse que viver da música, passaria fome. É melhor você ser uma boa arquiteta, como deseja. As duas deram boas gargalhadas.  Naquele dia nada tirava o estado de alegria de Joana, além disso, também ficou feliz em fazer a mãe sorrir, e insistiu no convite para a Serra, mas sua mãe manteve a decisão de não subir a Serra naquela tarde de domingo, quem sabe no próximo, falou.
Joana respeitou a vontade da mãe, depois se apressou em cuidar das coisas de casa e se arrumar, pois o ônibus que levaria  até o topo da Serra, tinha horário marcado para sair do centro da cidade.
      Conforme costume de mãe, a sua quis saber com quem iria. Joana fez uma expressão meio irônica e respondeu: - mãe, vou com Tiana e o povo. Sei me cuidar, mãe!  Mas a mãe não se contentou e aconselhou a filha, pedindo para ter cuidado, pois viver nesse mundo não está nada fácil. Ela quis dizer que Joana não deveria confiar em todo mundo. Mais uma vez Joana sorriu, mas tranquilizou-a,  garantindo que tomaria todo o cuidado do mundo.
       A ansiedade de Joana era tamanha. O dia estava muito quente, Joana caminhou alguns metros até o local do ônibus, logo percebeu que havia muita gente interessada em subir a Serra, o ônibus ficaria pequeno, mas só havia um. De repente, um grito ecoou:  - RUMO À SERRA!! As pessoas foram ocupando o ônibus. O elevado calor, intensificado pela aglomeração no ônibus, de 48 pessoas entre 5 a 84 anos de idade, não reduziu a alegria contagiante que embriagava a todos. O motorista sentiu que a quantidade de pessoas ultrapassava o limite recomendado para transportar, ainda mais para subir uma serra, somente uma pessoa desistiu, isso mesmo, apenas um transporte coletivo público havia sido liberado.
     A viagem iniciou. Além da amiga Tiana, Joana se encontrou com outras pessoas jovens da cidade, todas conhecidas e com o mesmo entusiasmo.  O dia estava escaldante, prometia um espetacular pôr do sol. Uma grande bola avermelhada viria se escondendo, valseando por trás das serras e deixaria os seres contempladores suspensos de suas vidas cotidianas, marcadas pela negação de quase todos os direitos, inclusive do direito a transporte público para subir a Serra, em dia de realização de um projeto cultural de tamanha importância. O espetáculo lhes faria sorrir atentos à esplendorosa beleza a ser contemplada. As pessoas que ali estivessem se sentiriam contentadas e privilegiadas, pois, embora digam que o nascer e o pôr do sol são para todos os seres do planeta, aquele pôr do sol a ser contemplado do alto da Serra da Barriga, naquela tarde de novembro, seria privilégio de poucos.  
       Na subida da Serra, a baixa velocidade do ônibus acelerava o coração de Joana. Inicialmente a causa era ansiedade, não medo, pois a hora do sol se pôr se aproximava, não era possível haver espera, outras serras o aguardavam. Faltava pouco, quase nada, para chegar ao alto da Serra-mãe...  De repente um grito foi escutado nos quatro cantos da Serra e ecoou até mais longe. Era um grito feminino, de uma mãe em desespero, um grito de dor: - MAIS UMA VEZ NÃO. NÃO SUPORTO MAIS ASSISTIR O SANGUE DE MEUS FILHOS E FILHAS SER DERRAMADO RIBANCEIRA ABAIXO.
       De repente, os risos foram transformados em gritos e silêncios. Contam que um  outro grito também ecoou por toda a serra: —  ROUBARAM NOSSO PÔR DO SOL, MÃE!!!!!
Acreditam que foi o último grito de Joana. Ninguém sabia que a tragédia já estava anunciada. O ônibus despencou. Joana, Tiana e mais tantas outras pessoas não contemplaram o pôr do sol no dia 24 de novembro de 2024. A Serra-mãe chorou desesperadamente a morte de seus filhos, a dor que dilacerou seu coração poderia ter sido evitada,  Ela sabia.
      Outras serras cumpriram o ritual, esconderam o sol que, segundo contam, reduziu seu esplendor naquele dia.
Gorete Amorim
Enviado por Gorete Amorim em 12/03/2025
Alterado em 26/09/2025


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